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Programas de saúde mental

Bets no trabalho: como o RH pode combater o endividamento

Empresas estruturam acolhimento e educação financeira para enfrentar os impactos emocionais e operacionais das apostas on-line

bets no trabalho
Veja como o RH pode apoiar colaboradores endividados por bets com acolhimento, saúde mental e programas de educação financeira.
Délber Lage, diretor de Soluções para RH da Serasa Experian
Délber Lage, diretor de Soluções para RH da
Serasa Experian

O avanço descontrolado das apostas on-line motivou uma intervenção drástica do governo federal por meio de uma medida provisória que proíbe o setor no País. Com a publicação da nova regra, nenhuma plataforma de aposta digital poderá operar em território brasileiro a partir de 5 de outubro. A decisão busca frear com urgência o superendividamento das famílias e os graves prejuízos à saúde mental causados pelas promessas de ganhos fáceis. Entretanto, o encerramento obrigatório das operações não eliminará imediatamente os reflexos emocionais e financeiros que já invadiram as organizações. O cenário exige que a gestão de pessoas construa mecanismos urgentes de acolhimento para lidar com as sequelas deixadas pelo vício. 

Para dimensionar esse impacto, um estudo da Serasa Experian revelou a extrema vulnerabilidade dos profissionais que enfrentam forte pressão orçamentária. No perfil identificado como “Apertados”, expressivos 62% dos trabalhadores já se encontram com as contas em inadimplência. Nesse mesmo grupo, apenas 13% conseguem poupar regularmente e somente 12% terminam o mês com dinheiro no bolso. Além disso, 57% enfrentam dificuldades financeiras graves no presente, o que corrói a concentração nas tarefas operacionais. Segundo Délber Lage, diretor da datatech, o RH precisa compreender esses dados para desenhar iniciativas aderentes às reais necessidades da equipe.

Como o avanço das bets afeta o ambiente corporativo?

Vanessa Faria Corte, diretora de RH da Premium Essential Kitchen
Vanessa Faria Corte, diretora de RH da
Premium Essential Kitchen

O hábito de apostar frequentemente ultrapassa o universo pessoal e alcança a rotina de trabalho diária. As plataformas digitais funcionam ininterruptamente nos celulares corporativos e pessoais, gerando frequentes episódios de desatenção operacional. Além disso, a falsa ilusão do ganho fácil atrai profissionais que já enfrentavam graves problemas de crédito. Vanessa Faria Corte, diretora de RH da Premium Essential Kitchen, ressalta a dimensão invisível dessa crise no dia a dia. “O presenteísmo é silencioso: a pessoa está trabalhando, mas sua atenção está voltada para o problema financeiro”, pontua a executiva.

Em setores que demandam atenção constante, o prejuízo cognitivo pode comprometer diretamente a segurança e o rendimento. A busca desesperada por recursos para cobrir perdas leva muitos colaboradores a solicitar frequentes adiantamentos salariais. Colegas de equipe também passam a ser procurados para empréstimos informais, desgastando o clima organizacional da empresa. Esse ciclo contínuo de aflição desgasta a energia mental do trabalhador muito antes de ocasionar o absenteísmo formal. A equipe médica e as lideranças precisam enxergar tais manifestações precoces com sensibilidade e muito critério técnico.

Luiz Edmundo Rosa, diretor de Saúde e Bem-estar da ABRH Brasil
Luiz Edmundo Rosa, diretor de Saúde e Bem-estar 
da ABRH Brasil

O problema se torna ainda mais grave porque envolve mecanismos psicológicos de dependência e compulsão contínua. Para Luiz Edmundo Rosa, diretor de Saúde e Bem-estar da ABRH Brasil, as empresas precisam agir com rapidez. “As apostas podem envolver comportamento compulsivo, com impactos que ultrapassam a dimensão financeira e alcançam a saúde mental”, afirma. Quando a pressão das dívidas se acumula, sentimentos de culpa e vergonha paralisam o profissional envolvido. Reconhecer essas dores silenciosas é o ponto de partida para qualquer intervenção corporativa eficaz e acolhedora. 

Qual é o limite entre apoio corporativo e invasão de privacidade?

Diante desse cenário delicado, muitos gestores ficam inseguros sobre os limites legais e éticos de sua atuação. Intervir nas finanças pessoais pode soar autoritário ou invasivo caso a abordagem não seja conduzida com discrição. Especialistas alertam que o departamento de pessoal jamais deve assumir uma postura inquisitória ou punitiva com as equipes. Karina Brito, CFP® e especialista em planejamento financeiro na Minhas Proteções, reforça os cuidados necessários. “O RH não deve investigar quem aposta, controlar o celular das pessoas ou assumir um papel de vigilância”, alerta.

Em vez de patrulhar aparelhos ou extratos bancários, a empresa deve concentrar esforços na observação de sinais objetivos. Quedas no desempenho, oscilações bruscas de humor e pedidos atípicos de antecipação merecem conversas pautadas pela empatia mútua. Vanessa Corte, da Premium Essential Kitchen, destaca que a atuação institucional precisa respeitar integralmente a individualidade de cada colaborador. “O papel do RH é criar condições para que a pessoa saiba que existe ajuda disponível”, afirma a diretora de RH. Quando o ambiente garante sigilo absoluto, o colaborador se sente seguro para procurar suporte antes do colapso.

O preparo dos líderes imediatos se consolida como a peça central dessa engrenagem de cuidado organizacional. Por estarem na linha de frente diária, os gestores conseguem notar mudanças relevantes de atitude nos subordinados. Luiz Edmundo, da ABRH Brasil, defende que a capacitação das lideranças deve focar na escuta humanizada e sem julgamentos morais. “O gestor precisa saber observar, conversar, acolher, preservar o sigilo e encaminhar com segurança”, explica o diretor da associação. Segundo ele, estabelecer pontes de confiança mútua é infinitamente mais produtivo do que recorrer a medidas meramente disciplinares.

De que forma as empresas podem construir programas preventivos eficazes?

Karina Brito, fundadora da Minhas Proteções
Karina Brito, fundadora da Minhas Proteções

Ações pontuais, como palestras isoladas em datas comemorativas, já não são suficientes para deter os danos das apostas. É imperativo estruturar iniciativas continuadas de educação financeira integradas aos benefícios de saúde mental corporativa. Karina Brito pontua que o ensino precisa focar na tomada de decisão e na correta percepção dos riscos. “Combater os danos das bets significa dar às pessoas condições para compreender como essas plataformas funcionam”, salienta a especialista. Ela argumenta que desmistificar falsas promessas de riqueza permite que o trabalhador retome o controle consciente sobre seu próprio orçamento.

Além da conscientização econômica, as companhias devem fortalecer seus Programas de Assistência ao Empregado com suporte multidisciplinar. Quadros mais graves de transtorno do jogo exigem acompanhamento médico e psicológico especializado com absoluta discrição. As políticas de concessão de crédito consignado e adiantamentos também necessitam de critérios transparentes e responsáveis. Benefícios desse tipo nunca devem se transformar em armadilhas que ampliem o endividamento crônico dos funcionários. A união entre orientação jurídica, clínica e financeira oferece um alicerce sólido para a recuperação de quem sofre.

Essa abordagem estruturada coloca o bem-estar integral dos trabalhadores no coração das estratégias de sustentabilidade corporativa. Cuidar ativamente da saúde socioemocional dos colaboradores fortalece diretamente o pilar social da agenda ESG nas organizações. Vanessa Corte, da Premium Essential Kitchen, enfatiza que relações saudáveis de trabalho dependem de respeito à dignidade humana e estabilidade. “A sustentabilidade de uma empresa também passa pela sustentabilidade das relações de trabalho”, conclui a diretora de RH. 

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