Ambiente de trabalho tóxico pode afetar a saúde física
Dores recorrentes, insônia, crises de ansiedade e até gastrite podem ter origem no ambiente de trabalho
Problemas como queda de imunidade, dores musculares, enxaqueca e cansaço extremo vêm sendo cada vez mais associados não apenas ao estilo de vida, mas também à qualidade do ambiente de trabalho. Após a pandemia, essa conexão ficou ainda mais evidente: o corpo humano passou a reagir com mais intensidade a modelos de gestão baseados na pressão constante e na ausência de acolhimento. “Nosso corpo reage ao ambiente em que vivemos. E, no caso do trabalho, essa influência é direta e profunda”, afirma o médico Marco Aurélio Bussacarini, especialista em Medicina Ocupacional pela USP e fundador da Aventus Ocupacional. Segundo ele, empresas com um clima organizacional tóxico tendem a gerar não apenas adoecimento físico e mental, mas também queda de produtividade, absenteísmo e alta rotatividade.
De acordo com Bussacarini, sintomas físicos como insônia, problemas digestivos, dores de cabeça e sensação constante de esgotamento podem ter como origem o estresse crônico gerado por más relações interpessoais, excesso de cobrança, reuniões hostis e falta de reconhecimento. “É comum que pessoas passem por uma bateria de exames sem encontrar causas clínicas aparentes. Muitas vezes, o problema está no contexto emocional e organizacional em que elas estão inseridas”, destaca.
O que as empresas podem fazer?
A boa notícia é que é possível transformar esse cenário com mudanças práticas e sustentáveis. Confira algumas orientações para líderes e gestores:
- Forme lideranças preparadas: incentive o desenvolvimento de habilidades como empatia, escuta ativa e comunicação não violenta.
- Aposte em uma cultura de respeito: ambientes saudáveis são construídos com base na confiança, acolhimento e valorização dos colaboradores.
- Vá além das ações pontuais: oferecer atividades de bem-estar é positivo, mas é essencial que essas iniciativas façam parte da cultura da empresa, e não apenas ações isoladas.
- Adote uma abordagem integrada: a saúde ocupacional deve envolver equipes médicas, psicólogas e gestores de pessoas trabalhando juntos.
- Promova pausas e equilíbrio: estimule a prática de pausas regulares e incentive que colaboradores respeitem seus horários de descanso.
Cuidar da saúde física dos colaboradores vai muito além de oferecer planos de saúde ou consultas pontuais. É preciso olhar para as causas do adoecimento de forma mais profunda e sistêmica, entendendo que o ambiente de trabalho pode ser um fator decisivo no bem-estar, ou no sofrimento, de quem faz a empresa acontecer. “Não adianta tratar uma gastrite apenas com medicação se o ambiente continua gerando sofrimento. O cuidado com a saúde começa também com a mudança na cultura organizacional”, afirma o médico.
Como identificar os sinais?
Os trabalhadores também precisam estar atentos ao próprio corpo. Alguns sinais que merecem atenção:
- Insônia ou dificuldade para relaxar antes do expediente
- Crises de ansiedade ou irritabilidade constante
- Problemas digestivos sem causa identificada
- Sensação de esgotamento mesmo após o descanso
- Queda na imunidade e doenças recorrentes
Caso esses sintomas estejam presentes, é fundamental buscar acompanhamento médico e psicológico, já que ignorar os sinais pode levar a quadros mais graves, como depressão, burnout e até doenças autoimunes, alerta Bussacarini. Além do suporte profissional, pequenas atitudes no dia a dia fazem diferença para preservar o equilíbrio físico e emocional: criar uma rotina com pausas e momentos de descanso, priorizar o sono e a alimentação saudável, praticar atividades físicas regularmente e estabelecer limites claros entre vida pessoal e profissional são medidas simples, mas poderosas na prevenção do adoecimento.
Mais do que uma obrigação ética, cuidar da saúde dos colaboradores é uma decisão estratégica. “Ambientes saudáveis produzem pessoas saudáveis. Empresas que entendem isso constroem marcas fortes, retêm talentos e crescem de forma sustentável”, conclui o especialista.








