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Nem só de mercado vive o saldo de benefícios corporativos

Pesquisa da Biz e líderes de mercado mostram como o comportamento geracional e as novas regras do PAT estão redesenhando a relação entre empresas e colaboradores

Atualizado em 06/04/2026 às 13:04, por Vanderlei Abreu.

Benefícios corporativos flexíveis

Imagem gerada por inteligência artificial

Danilo Teixeira, da Ticket: “Queremos contribuir
para o 'Orgulho de ser CLT'”

A modernização do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) via Portaria nº 1.707/24 trouxe o trabalhador de volta ao centro da estratégia. Danilo Teixeira, diretor de Marketing da Ticket, defende que essa evolução precisa ser equilibrada. “É fundamental assegurar um equilíbrio econômico sustentável para todos os participantes do sistema, condição essencial para preservar a capacidade de investir e inovar”. Para ele, a segurança alimentar continua sendo o pilar inegociável do programa.

Arthur Freitas, CEO do iFood Benefícios, vê na nova regra uma oportunidade de democratizar o acesso à alimentação de qualidade em todo o território nacional. Ele destaca que “a medida assegura um mercado de benefícios justo e aberto, com reflexos positivos para toda a economia. O trabalhador retorna ao centro da política pública, podendo usar seu vale na padaria da esquina ou em grandes redes”. Segundo o executivo, a interoperabilidade é o que garante essa liberdade real.

A competitividade agora se desloca das taxas para a qualidade da experiência digital e a amplitude da rede de aceitação. Teixeira reforça que o foco da Ticket é transformar o benefício em um ativo de retenção e valorização da carreira. “Queremos contribuir para o 'Orgulho de ser CLT', consolidando relações de confiança entre empresa, RH e colaboradores”. A métrica de sucesso, nesse novo cenário, de acordo com o executivo, passa a ser o engajamento diário com a plataforma.

O fim de práticas como o “rebate” limpa o mercado e força as empresas a entregarem valor real aos estabelecimentos e usuários finais. Freitas pontua que a redução de custos transacionais beneficia diretamente o varejo local e a ponta da cadeia. “Essa medida impactará positivamente milhares de restaurantes e mercados, tornando a alimentação mais acessível”. O mercado, antes engessado por taxas, segundo o CEO do iFood Benefícios, agora se torna um ecossistema de conveniência.

O que os dados da Biz revelam sobre o consumo geracional?

Douglas Barrochello, da Biz: "O digital não
substituiu o físico, mas trouxe novas camadas

Os dados de dezembro de 2025 da Biz mostram que, embora o supermercado lidere com R$ 3,18 milhões, o comportamento de gasto é um mapa das idades. Douglas Barrochello, CEO da Biz, analisa que a tecnologia deve abraçar a pluralidade de perfis simultaneamente. “O digital não substituiu o físico, mas trouxe novas camadas. Enquanto Boomers preferem o presencial, a Geração Z já faz 24,3% de suas compras on-line”, constata.

A pesquisa detalha que os atacadistas, com R$ 1,1 milhão transacionados, são o porto seguro de quem faz compras de volume e busca economia. Barrochello explica que “existe uma transição clara: os mais velhos focam em abastecimento e planejamento doméstico, enquanto os Millennials buscam o lifestyle”. Esse grupo intermediário equilibra o básico com gastos significativos em farmácias, que somam R$ 350 mil no período.

A diversificação ganha força com a Geração Z, que utiliza o saldo para financiar experiências, mobilidade e consumo imediato. Barrochello detalha que esse público “prioriza a conveniência, o que se reflete nos R$ 405 mil gastos em lazer e hotelaria e R$ 172 mil em vestuário”. Para o CEO da Biz, o RH que ignora esses dados de consumo está oferecendo uma ferramenta obsoleta para os novos talentos.

A conclusão é que o benefício agora funciona como uma carteira digital agnóstica e extremamente flexível para o dia a dia. Barrochello pondera que a infraestrutura oferecida pela Biz permite o uso tradicional do cartão físico e uma jornada digital fluida com antecipação salarial. “Entender que o colaborador usa o saldo para sustentar seu estilo de vida é o primeiro passo para uma gestão de benefícios realmente moderna.”

Qual o papel da tecnologia na modernização das políticas de RH?

Josiane Lima, da Swile: “Queremos ser um
'Uber' no setor”

O Brasil é hoje um dos mercados mais promissores do mundo para a inovação em benefícios, movimentando cerca de R$ 200 bilhões anuais. Josiane Lima, diretora de Pessoas da Swile, afirma que a transparência e a competitividade são os novos padrões do setor. “A Swile já opera com arranjo aberto, então o mercado fica mais fair e competitivo. Queremos ser um 'Uber' no setor, trazendo melhorias dia após dia”. Para ela, o aplicativo deve ser um organismo vivo.

A integração entre plataformas de RH e a vida financeira do colaborador reduz drasticamente a burocracia e a carga operacional. Josiane destaca que a experiência global da Swile na França serve de laboratório estratégico para o mercado brasileiro. “A história que vivemos lá é a que queremos construir aqui, mas em escala maior”. O objetivo, de acordo com a executiva, é simplificar a gestão para que o RH foque em estratégia de pessoas.

Arthur Freitas, do iFood Benefícios, complementa essa visão ao tratar a autonomia de escolha como o “novo salário indireto” das companhias. Ele argumenta que “a autonomia de escolha é, hoje, tão importante quanto o salário nominal. Oferecemos uma plataforma que maximiza o valor percebido promovendo integrações com o Clube iFood e Decolar”. O benefício passa a valer mais do que o dinheiro depositado devido ao poder de compra.

Essa evolução digital reflete diretamente na capacidade de atração das empresas em setores em que a disputa por talentos é acirrada. Como resume Freitas, “o custo de substituição de um colaborador é muito maior do que o investimento em um programa de benefícios moderno”. A tecnologia, portanto, não é apenas um acessório, na opinião do CEO do iFood Benefícios, mas uma barreira de retenção contra o turnover agressivo.

Como a PepsiCo gerencia a complexidade de quarenta benefícios diferentes?

Nadja Minami, da Pepsico: “Flexibilidade não é
um modelo único”

Na Pepsico Brasil, a personalização em escala é o que mantém a engrenagem funcionando para perfis que vão do estagiário ao veterano. Nadja Minami, diretora de Total Rewards, explica o funcionamento do programa PepFlex. “Organizamos mais de 40 opções em um sistema intuitivo de pontos. Isso permite que cada pessoa escolha o que faz sentido para sua realidade”. O sistema simplifica a jornada sem tirar o poder de decisão.

A estratégia da companhia é baseada em separar o que é essencial do que é aspiracional em cada fase da vida do funcionário. De acordo com Nadja, “a Pepsico estruturou a oferta de forma didática, separando alimentação e mobilidade daquilo que é para momentos específicos, como planejamento familiar ou seguros. Essa clareza ajuda o colaborador a enxergar o valor real do pacote total oferecido.”

A flexibilidade também é usada como uma ferramenta poderosa de equidade entre os escritórios e a operação de campo. Nadja afirma que “flexibilidade não é um modelo único. Enquanto o administrativo tem home office, criamos o 'De Bem com a Vida' para as fábricas, com três dias de folga remunerada. É o reconhecimento das diferentes dinâmicas produtivas de cada função na cadeia.”

Nadja acredita que o mercado brasileiro ainda teme a flexibilidade por questões operacionais, mas defende que o risco vale a pena. Ela pondera que “na Pepsico, colocamos as pessoas no centro e somos guiados por evidências. O suporte em momentos significativos da jornada cria uma conexão duradoura. O benefício flexível vira, assim, uma demonstração prática de cuidado genuíno com o capital humano.”

De que forma a saúde integral impacta a cultura organizacional?

Anderson dos Anjos, da Nauterra: O foco é
mudar a percepção de saúde dentro da
operação industrial”

Vanessa Proença, vice-presidente de RH da EssilorLuxottica, lidera o programa “LiveWell” com foco no cuidado 360º de seus 7.200 colaboradores. Ela afirma que “Investir na qualidade de vida fortalece o engajamento e contribui para a liberação do potencial de cada pessoa". O programa inclui desde sessões de quick massage até suporte financeiro e psicológico via o programa “Conte Comigo”.

Para a executiva, a saúde mental é um dado crítico de negócio, visto que 28% dos brasileiros já cogitaram demissão por esse motivo. Vanessa explica que oferecer acesso a ferramentas como o Wellhub é uma resposta direta a esse desafio. “Iniciativas de bem-estar deixaram de ser tendência para se tornar necessidade. O objetivo é criar um ambiente no qual a saúde seja o motor da produtividade.

Anderson dos Anjos, da Nauterra, leva esse conceito para o chão de fábrica com o programa “Viva + Leve”, focado na mudança de hábitos. Ele descreve a coordenação da equipe multidisciplinar. “Coordenar médicos, nutricionistas e preparadores físicos é um desafio logístico que se tornou nossa ferramenta de transformação cultural. O foco é mudar a percepção de saúde dentro da operação industrial.”

A Nauterra optou por custear integralmente três meses de academia para os participantes para garantir que a barreira inicial seja quebrada. Anderson pontua que “as avaliações de bioimpedância quinzenais ajudam a manter o engajamento porque os dados mostram a evolução real. A saúde física deixa de ser uma promessa e vira um projeto compartilhado de sucesso entre empresa e empregado.”

Quais os resultados práticos de um RH focado no bem-estar?

Arthur Freitas, CEO do iFood Benefícios

Os ganhos de um programa de saúde robusto aparecem em indicadores vitais, como a redução de acidentes e o aumento da segurança. Anderson dos Anjos, da Nauterra, explica que o foco na higiene do sono reduz drasticamente os riscos na fábrica. “Aulas sobre alimentação e sono influenciam diretamente a atenção na operação”. Um time bem cuidado é um time mais seguro, atento e produtivo.

O retorno subjetivo, colhido em pesquisas de percepção, é o que consolida a cultura de pertencimento na Nauterra. Anderson revela que “os feedbacks mais surpreendentes vêm da mudança na atitude mental positiva. O colaborador se sente valorizado pelo cuidado que transborda para sua vida pessoal. O programa virou o principal elo de integração entre as diferentes áreas da companhia.”

Essa visão de cuidado integral se conecta com a recomendação de Douglas Barrochello, da Biz, para atrair a Geração Alpha. Para ele “é preciso parar de pensar em benefício como pacote fechado e começar a construir vínculos. Na Biz, encaramos o benefício como uma extensão da relação empresa-pessoa. O saldo do cartão deve servir para alimentar tanto o corpo quanto o projeto de vida.”

Em última análise, a convergência entre dados, tecnologia e empatia define as empresas que vencerão a guerra por talentos nos próximos anos. Como destacado pelos líderes da Ticket, iFood e Swile, o mercado está aberto e a liberdade de escolha é o novo padrão ouro. O RH de sucesso é aquele que usa a flexibilidade para transformar o saldo em uma alavanca de felicidade.