Canais de denúncia: confiança desafia o compliance
93% das empresas têm hotlines, mas retaliação silencia colaboradores
Pesquisas revelam que, apesar da consolidação dos canais de ética, a falta de confiança e a baixa qualidade dos relatos desafiam a governança corporativa no Brasil (imagem gerada por inteligência artificial)
A 5ª edição da Pesquisa Perfil do Hotline no Brasil, da KPMG, revela que 93% das empresas já implementaram canais de denúncia, consolidando a ferramenta como padrão de governança. No entanto, o volume de relatos não esconde a mudança no perfil das queixas: casos de impacto alto e crítico (assédio e fraude) saltaram para 11,9% em 2025. Emerson Melo, sócio-líder da KPMG, reforça que "o uso de hotline está consolidado no Brasil, refletindo boas práticas de mercado e exigências regulatórias", mas o desafio agora migra da existência para a qualidade da gestão.
Ao mesmo tempo, os dados da Be.Aliant mostram o quinto aumento consecutivo no volume de denúncias, atingindo 9,8 relatos mensais por mil colaboradores. Entretanto, a qualificação dessas informações caiu: 33% dos relatos não possuem dados mínimos para investigação. Carolina Paulino, sócia da KPMG, pontua que a estruturação correta desses canais é um "elemento central para a confiança de stakeholders e para a resiliência empresarial em ambientes de maior complexidade regulatória".
Por que os colaboradores ainda se calam?
Apesar da onipresença tecnológica, a "crise de confiança" é real: 48,5% dos profissionais que sofreram assédio não denunciaram por medo de retaliação. O problema reside na impessoalidade e na falta de retorno, o que transforma o canal em um "buraco negro" de informações. Juliana Filizzola, fundadora da Escuta Ativa, analisa que "as ouvidorias oferecem um canal digital genérico, sem interação humana para sondagem e aprofundamento. Com isso, as manifestações chegam desorganizadas, carregadas de emoção e muitas vezes não recebem retorno".
Essa falha na escuta estruturada empurra o colaborador para o anonimato ou para a judicialização. Atualmente, 73% dos denunciantes preferem não se identificar, e a taxa média de retorno das ouvidorias internas é de apenas 56%. Sem um processo claro de mediação ou suporte especializado, o canal deixa de ser uma ponte de diálogo para se tornar apenas um item de conformidade burocrática, falhando em proteger a saúde mental das equipes e o caixa da empresa contra passivos trabalhistas.
Como transformar denúncia em cultura ética?
O anonimato é a principal porta de entrada para a integridade, representando 64,7% das denúncias captadas pela Be.Aliant. O segredo da eficácia está em tratar o relato não como um ataque, mas como um dado de gestão para proteger o negócio. Mauricio Fiss, cofundador da Be.Aliant, destaca que "o anonimato continua sendo elemento central da efetividade do sistema. O desafio é transformar essa primeira interação em confiança contínua, demonstrando que o sistema protege o denunciante e gera consequências concretas".
A liderança é o ponto mais sensível dessa equação, sendo alvo de 54,3% de todas as queixas registradas. Em 2026, a governança exige que as empresas abandonem a escuta reativa e adotem modelos de ouvidoria que garantam sigilo absoluto e mediação técnica. Ao profissionalizar o canal, a organização não apenas mitiga riscos, mas sinaliza para o mercado que sua cultura de integridade é resiliente o suficiente para ouvir as verdades mais desconfortáveis vindas de seus próprios talentos.
Resumo dos Indicadores de Ética (2025-2026):
| Indicador | Dado | Fonte |
|---|---|---|
| Empresas com canais de denúncia | 93% | KPMG |
| Denúncias anônimas (Preferência) | 73% | KPMG |
| Queixas contra líderes e gestores | 54,3% | Be.Aliant |
| Relatos sem informações para apuração | 33% | Be.Aliant |
| Taxa média de retorno (Feedback) | 56% | Escuta Ativa |








