A transição energética global impõe transformações profundas na cadeia automotiva e redefine a arquitetura dos sistemas de propulsão. A busca por matrizes sustentáveis, como hidrogênio, biodiesel e biometano, exige soluções avançadas em engenharia mecânica. Para responder a essa nova realidade, a RIO (Riosulense), fabricante de peças automotivas sediada em Rio do Sul (SC), decidiu preparar seu próprio time. A fabricante estruturou uma iniciativa pioneira de mestrado profissional na indústria voltada à formação científica aplicada.
A proposta nasceu da compreensão de que tecnologias disruptivas não se compram prontas no mercado: elas dependem de capital humano especializado. “A nossa motivação foi estratégica, pois inovação depende de gente dedicada e know-how”, afirma Clebson Atilio Ferreira, gerente Técnico da RIO. “Para ter pesquisa é preciso ter pesquisadores. E nada mais motivacional do que estimular a própria equipe a se capacitar”, complementa Ferreira.
Como a parceria acadêmica acelerou a formação do corpo técnico?
O curso foi desenvolvido em cooperação com a Universidade de Caxias do Sul (UCS), combinando disciplinas remotas e módulos presenciais. A primeira turma formou nove engenheiros especializados em materiais e processos de manufatura entre 2023 e o fim de 2025. Para assegurar a adesão dos colaboradores, a companhia custeou uma bolsa de estudos de 70% da mensalidade. Além disso, a estrutura de laboratórios da própria fábrica serviu como espaço experimental para os estudos.
Ferreira justifica a escolha da UCS “pela infraestrutura e corpo docente qualificado”. O executivo destaca a forte proximidade da instituição com os desafios práticos do parque fabril. Segundo o gestor, desvendar os motores do futuro exige entender como peças atuais irão coexistir com novos combustíveis limpos. A iniciativa gerou resultados tão consistentes que a fabricante já abriu processo seletivo para uma nova turma prevista para 2027.
De que forma as pesquisas resolveram gargalos reais de engenharia?
A conexão direta entre rigor acadêmico e rotina industrial permitiu solucionar entraves complexos da linha de produção diária. “O curso ofereceu ferramentas para aplicar metodologias científicas na resolução de problemas reais da empresa”, relata Marcelo Hausmann, coordenador de Engenharia da RIO, que dedicou sua pesquisa à usinagem de camisas de cilindro. “Os motores do futuro exigirão componentes cada vez mais complexos, o que amplia os desafios de manufatura”, explica.
Na etapa de fundição de aços, a formação permitiu o desenvolvimento de ligas metálicas com propriedades mecânicas superiores. “Pesquisei ligas com maior qualidade para reduzir defeitos internos do metal e melhorar o desempenho metalúrgico”, detalha Eliasar Martins Bernardo, supervisor de Engenharia de Processos da RIO, enfatizando a busca por conjuntos mecânicos mais leves e eficientes. A abordagem técnica permitiu transformar teorias avançadas em ganhos mensuráveis de produtividade industrial.
Quais ganhos a estratégia trouxe para a marca e o negócio?
O conhecimento acumulado pelos mestres capacitou a empresa a submeter projetos estruturados para linhas de fomento e inovação. As pesquisas também originaram artigos científicos destinados a congressos internacionais e periódicos especializados do setor automotivo. Essa produção intelectual fortalece a reputação técnica da companhia perante montadoras e parceiros estratégicos. O investimento demonstra a força da educação corporativa quando conectada aos objetivos de longo prazo.
Ao aproximar a academia da fábrica, a RIO consolidou um modelo sustentável de gestão de pessoas baseado no aprendizado contínuo. A valorização dos talentos internos gera pertencimento, retém especialistas qualificados e estimula o protagonismo técnico nas equipes. O programa comprova que a evolução da indústria nacional depende da coragem de investir no desenvolvimento intelectual dos profissionais. Assim, a empresa constrói hoje a base técnica para liderar os motores de amanhã.




