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Da NR-1 à IA: Como o RH transformou a prevenção de acidentes do trabalho em estratégia corporativa

No Dia Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho, especialistas debatem riscos psicossociais, tecnologia e cultura preventiva nas empresas

Dia Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho
Saiba como a prevenção de acidentes do trabalho une saúde mental, tecnologia 4.0 e liderança para proteger vidas nas empresa

O Dia Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho, comemorado em 27 de julho, ganha um contorno ainda mais abrangente nas corporações modernas. Além de combater riscos tradicionais como quedas, cortes e choques elétricos, o ambiente de trabalho precisa estar devidamente preparado para lidar com emergências cardiovasculares súbitas. Quando ocorre uma parada cardiorrespiratória, cada segundo perdido reduz drasticamente as chances de recuperação e sobrevivência da vítima. Por essa razão, a existência de um protocolo claro de atendimento imediato, alinhado à Norma Regulamentadora nº 7, tornou-se item indispensável nas organizações. A legislação orienta que os locais de trabalho disponham de materiais para primeiros socorros mantidos sob a supervisão de profissionais capacitados. Apenas ter o equipamento no local não basta se a equipe não souber exatamente como agir nos momentos críticos de pânico. É essa agilidade prévia que diferencia um susto passageiro de uma tragédia irreparável dentro das instalações corporativas.

Segundo dados citados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, a desfibrilação realizada nos primeiros cinco minutos pode elevar a sobrevida a até 70%. Além disso, a combinação de ressuscitação cardiopulmonar imediata com o uso do desfibrilador externo automático duplica as chances de salvar uma vida. O equipamento é altamente intuitivo e só dispara a descarga elétrica quando identifica ritmos cardíacos específicos e passíveis de tratamento. No entanto, a hesitação humana na hora de localizar o aparelho e acionar o socorro médico ainda compromete o tempo de resposta nas companhias. Por isso, a manutenção preventiva das baterias e o treinamento contínuo das equipes formam a base de uma estrutura verdadeiramente eficiente.

Por que a inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 altera a responsabilidade jurídica e técnica das empresas?

A entrada em vigor da nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 consolidou uma das maiores transformações recentes na gestão ocupacional brasileira. Pela primeira vez na história trabalhista, a identificação e o controle dos riscos psicossociais tornaram-se obrigações técnicas integradas ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Fatores como estresse crônico, jornadas exaustivas, metas abusivas e relações interpessoais tóxicas deixaram o campo subjetivo do bem-estar para integrar o inventário de riscos do Programa de Gerenciamento de Riscos. Essa alteração exige que a fiscalização e o próprio RH monitorem a organização do trabalho por meio de métricas consistentes e dados auditáveis. As empresas que negligenciarem esses fatores invisíveis ficam expostas a sanções administrativas severas e a processos judiciais de elevada gravidade. “A norma transforma em obrigação aquilo que muitos tratavam como discurso, exigindo que as empresas provem que monitoram riscos com dados concretos”, pontua Michel Cabral, CEO da Vixting.

Essa mudança normativa também altera profundamente a gestão de contingências e a segurança jurídica de corporações de todos os portes. Um programa de prevenção estruturado e devidamente documentado serve como a principal defesa institucional contra passivos trabalhistas e previdenciários. “A atualização das normas representa uma mudança de paradigma, pois a empresa precisa gerenciar os riscos de forma integrada para proteger o trabalhador e demonstrar que cumpriu seu dever de cuidado”, afirma Juliana Mendonça, mestra em Direito e sócia do Lara Martins Advogados. Na mesma linha, a prevenção deixou de ser interpretada como um centro de custo burocrático para assumir o papel de pilar econômico da governança. “A segurança do trabalho não é exigência burocrática, mas um investimento direto na proteção da vida, na redução de passivos e na sustentabilidade do negócio”, complementa Gilson de Souza Silva, especialista em Direito do Trabalho e sócio do CNFLaw. Dessa forma, a integração entre o departamento jurídico, o setor médico e os Recursos Humanos torna-se indispensável para consolidar essa nova postura preventiva.

De que forma a atuação integrada do Recursos Humanos e das lideranças fortalece a cultura de prevenção?

Na prática diária das indústrias, a construção de ambientes verdadeiramente seguros exige um esforço transversal liderado pela área de Recursos Humanos. Empresas como a Multiflon intensificaram a aplicação de questionários validados internacionalmente para mapear os fatores psicossociais que afetam o clima organizacional. Com base nesses diagnósticos, estruturou-se um Programa de Promoção à Saúde Mental alinhado às diretrizes da NR-1 e executado em parceria com a CIPAA. A iniciativa mobiliza lideranças e operadores em auditorias de EPIs, diálogos diários e canais permanentes para escuta de demandas emocionais e físicas. O resultado dessa abordagem humana reflete diretamente no engajamento dos colaboradores e na fluidez dos processos fabris. “Segurança não pode ser vista como responsabilidade de uma única área, exigindo um esforço contínuo do time de gestão com olhar atento para as pessoas”, explica Rochele Pagnoncelli, coordenadora de RH da Multiflon. Quando o trabalhador se sente seguro e valorizado, a produtividade cresce de maneira natural e sustentável.

Essa mesma visão ampliada sobre a saúde ocupacional é vivenciada em gigantes do setor do agronegócio e nutrição como a ADM. Com milhares de colaboradores distribuídos por fábricas, portos e escritórios, o grande desafio corporativo reside em manter uma cultura de prevenção padronizada e coerente. “Trabalhar a segurança de forma contínua envolve conscientização, desenvolvimento de lideranças e iniciativas para promover o bem-estar físico e a segurança psicológica”, pondera Antônio Paixão, diretor de RH da ADM Brasil. O ambiente em que as pessoas se sentem respeitadas e ouvidas reduz significativamente o surgimento de acidentes e melhora o clima organizacional. Além disso, a gestão de riscos integrada dialoga diretamente com as metas de ESG requeridas por investidores e parceiros comerciais globais. “Segurança não é um projeto estático com começo e fim, mas um processo permanente que acompanha a evolução das pessoas e dos negócios”, conclui Ricardo Sousa, diretor de SSMA da ADM para a América Latina.

De que maneira a inteligência artificial e a tecnologia preditiva estão revolucionando a segurança industrial?

A transformação digital na indústria trouxe uma revolução para os equipamentos de proteção individual, inaugurando a era do chamado EPI Inteligente. Durante décadas, capacetes e botas atuaram apenas de forma passiva como barreiras físicas contra impactos e quedas mecânicas. Hoje, com a consolidação da Segurança do Trabalho 4.0, esses dispositivos passam a coletar dados operacionais, interpretar riscos e emitir alertas em tempo real. Tecnologias como o Ultra-Wideband permitem monitorar a navegação de pedestres e veículos industriais com incrível precisão centimétrica. Assim que um trabalhador entra em uma área de perigo próximo a máquinas pesadas, o sistema emite avisos sonoros para ambas as partes envolvidas. O mercado global de dispositivos conectados de proteção deve saltar para mais de 6 bilhões de dólares na próxima década devido à sua altíssima eficiência. Essa modernização do parque industrial reduz drasticamente colisões graves e interrupções não planejadas na cadeia produtiva.

O grande diferencial das tecnologias vestíveis inteligentes está no uso de algoritmos de Inteligência Artificial para a análise preditiva de acidentes. Ao mapear o histórico de quase acidentes dentro da fábrica, a inteligência artificial identifica padrões de risco antes que eles se concretizem. Esse levantamento prévio permite reorganizar fluxos logísticos, ajustar layouts e corrigir falhas operacionais com antecedência total. Além de proteger a vida do colaborador, o investimento em soluções inteligentes apresenta um retorno financeiro estimado entre dois e três anos. O cumprimento rigoroso das normas regulamentadoras como a NR-06 e a NR-12 ganha uma camada extra de rastreabilidade para eventuais auditorias. “O futuro da segurança industrial será orientado pela capacidade de antecipar riscos e transformar dados brutos em prevenção efetiva”, projeta Vitor Rocha, especialista em Marketing e Negócios Digitais e analista da LogPyx.

Qual é o impacto dos indicadores nacionais de acidentes e das pequenas atitudes na sustentabilidade dos negócios?

Os dados alarmantes divulgados pelo Ministério do Trabalho mostram que o Brasil registrou mais de 800 mil acidentes de trabalho recentemente. Em setores de extrema complexidade operacional como o transporte de cargas onshore, a prevenção exige rigor técnico e acompanhamento permanente das equipes. Na Benel, empresa certificada pela ISO 45001, a gestão de riscos envolve auditorias comportamentais, verificações de veículos e monitoramento por câmeras. Apenas em ações mensais de conscientização, a companhia realiza centenas de inspeções em campo para garantir a adesão absoluta aos procedimentos. Adicionalmente, parcerias como a realizada com o SEST SENAT levam exames de saúde física, odontologia e suporte psicológico para as bases operacionais. “A segurança precisa estar incorporada à cultura da empresa, orientando as decisões diárias para proteger vidas e garantir a continuidade operacional”, destaca Liana Benício, líder de Segurança e Qualidade da Benel.

Na distribuidora ALE Combustíveis, o engajamento contínuo das equipes é estimulado por meio da valorização das pequenas escolhas diárias no ambiente profissional. Durante as campanhas do Abril Verde, o programa Diálogo Semanal de Segurança alcança milhares de participações de colaboradores em escritórios e postos. Esse esforço pedagógico demonstra que a vigilância constante com detalhes operacionais é o caminho mais seguro para evitar ocorrências graves. Quando a percepção de risco passa a ser uma atitude natural entre os funcionários, a empresa atinge patamares elevados de maturidade em segurança. “A segurança não é uma ação pontual, mas um valor essencial que precisa estar presente em cada decisão corporativa”, ressalta Adriano Brito, gerente executivo de SSMA.

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