Saúde mental: o cuidado deve ir além de janeiro
Dados mostram que o bem-estar emocional e financeiro impacta diretamente a produtividade, exigindo estratégias consistentes que vão além das campanhas sazonais
Imagem gerada por Inteligência Artificial

financeiro da Creditas
Dados recentes de uma pesquisa realizada pela Creditas, em parceria com a Opinion Box, revelam que a vida financeira dos brasileiros vai muito além de planilhas, exercendo uma pressão direta no equilíbrio psíquico. O levantamento com 1.347 trabalhadores CLT aponta que 66% dos entrevistados afirmam que problemas financeiros impactam sua saúde mental, resultando em sintomas graves como estresse, ansiedade e insônia.
Essa correlação entre o bolso e a mente gera um alerta para o ambiente corporativo, já que 50% dos profissionais sentem ansiedade constante devido ao endividamento e 38% não conseguem dormir bem. O estudo destaca ainda que 33% dos trabalhadores relatam sentir vergonha por estarem endividados, o que dificulta a busca por ajuda dentro da organização.
Para Guilherme Casagrande, educador financeiro da Creditas, a gestão financeira pessoal exige hoje entender as emoções e as pressões sociais que moldam as escolhas com o dinheiro. Ele reforça que a insegurança financeira atravessa todas as gerações, afetando o sentimento de segurança e pertencimento do indivíduo, o que exige um olhar mais empático do RH.
Como o endividamento interfere diretamente na produtividade das equipes?
A pesquisa da Creditas acende um sinal vermelho para os gestores ao revelar que 64% dos profissionais admitem não conseguir cumprir seus horários de trabalho devido ao desânimo causado pelo endividamento. Por outro lado, o impacto positivo de uma vida financeira equilibrada é nítido: 71% das pessoas performam melhor quando estão com as contas em dia, gerando maior produtividade.
Diante desse cenário, a demanda por educação financeira nas empresas tornou-se latente, com 92% dos colaboradores acreditando que as organizações deveriam oferecer esse tema como benefício. Atualmente, porém, apenas 30% tiveram algum contato com educação financeira em seus empregos, e 75% atribuem ao RH a responsabilidade de oferecer esses conteúdos.
Para combater essa lacuna, iniciativas como o programa “Papo de Grana” buscam capacitar o público a sair do vermelho e começar a investir. O objetivo é tratar a causa raiz do estresse financeiro, promovendo um bem-estar real que se reflita em menos horas extras e um clima organizacional mais saudável.
Quais as práticas de empresas que são referência em saúde mental contínua?

Sabin
No Grupo Sabin, a saúde mental não é um luxo, mas a base para viver melhor, sendo incorporada à cultura organizacional de forma permanente. A empresa, que figura há 21 anos no ranking Great Place to Work, busca ampliar suas ações para promover um ambiente saudável e acolhedor o ano todo.
A presidente-executiva do Grupo Sabin, Lídia Abdalla, explica que o investimento no modelo de gestão de pessoas é essencial para que os colaboradores recebam cuidado e, assim, cuidem dos clientes. Para garantir a eficácia, a empresa utiliza ferramentas como o aplicativo Flowing, que funciona como um assistente virtual de saúde individualizado.
O programa “Saúde em Dia” do Sabin oferece uma abordagem integral, com clínica in company e telepsicologia 24h, abrangendo desde cuidados físicos até o equilíbrio emocional. Marly Vidal, diretora de Pessoas do Grupo, afirma que essa estrutura ajuda a entender se as expectativas dos colaboradores estão sendo atingidas de forma holística.
Qual o papel da liderança na manutenção de um ambiente psicologicamente seguro?

da Sodexo
Na Sodexo, a saúde mental segue uma agenda contínua e estratégica integrada ao Programa “Você Bem”, indo muito além de ações pontuais em janeiro. A empresa investe pesado no preparo dos líderes para que saibam reconhecer sinais de sofrimento emocional e conduzir conversas sensíveis sem julgamentos.
Vana Fiorini, diretora de Serviços de RH da Sodexo, destaca que o líder atua como um facilitador do acesso ao suporte, garantindo um ambiente de confiança e ética. Além disso, a companhia conta com 50 “Embaixadores de Saúde Mental”, voluntários treinados para fornecer primeiros socorros emocionais em diferentes unidades.
O programa “Apoio Pass” da Sodexo exemplifica a visão holística necessária ao oferecer suporte psicológico, jurídico e financeiro ininterrupto. Para Vana, apoiar as causas estruturais do estresse, como problemas financeiros, é fundamental para reduzir impactos emocionais profundos no trabalhador e sua família.
Como a abordagem multidisciplinar transforma a saúde mental em resultados concretos?

de Cultura e Processos da Libbs
Na Libbs, a saúde mental é tratada como um pilar inegociável da cultura organizacional há pelo menos quatro anos, consolidando uma estratégia que antecipa tendências de mercado. A farmacêutica mantém o “Núcleo de Cuidado”, um centro multidisciplinar que integra médicos do trabalho, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais para oferecer suporte integral aos colaboradores. Desde sua criação, o serviço já ultrapassou a marca de 46 mil atendimentos, demonstrando que a oferta de suporte especializado dentro da estrutura corporativa é uma ferramenta poderosa de acolhimento.
Além do suporte clínico, a empresa investe no “Serviço de Apoio Social e Emocional”, que lida com temas sensíveis como luto, traumas e até suporte oncológico para funcionários e seus familiares. Outro diferencial competitivo é a adoção do modelo 100% remoto para funções administrativas, implementado desde 2020 e aprovado por 99% dos profissionais. Os dados comprovam que a flexibilidade é uma aliada direta da saúde mental, uma vez que 97% dos gestores da companhia perceberam um aumento real na produtividade das equipes após a mudança.
Toda essa engrenagem é movida pela filosofia MentEx (Mentalidade de Excelência), que prioriza a segurança física e psicológica como base para qualquer meta de desempenho. Segundo Henrique Padial Ferri Holzhausen, diretor de Cultura e Processos da Libbs, essa visão prepara a empresa para as novas exigências da NR-1, que em maio de 2026 obrigará as organizações a gerenciarem riscos psicossociais. Ao colocar o bem-estar no centro da estratégia, a farmacêutica reforça que o cuidado genuíno não é apenas uma obrigação legal, mas o alicerce indispensável para resultados sustentáveis.
Quais são os resultados mensuráveis de uma estratégia de bem-estar permanente?
A consistência nas políticas de saúde mental gera indicadores concretos: na Sodexo, houve uma redução de 8% nos afastamentos por doença e acidente em menos de um ano. Além disso, a empresa registrou uma evolução clínica de 44% entre os colaboradores que utilizam as ferramentas de teleterapia.
O engajamento com o autocuidado também cresceu, com um aumento de 64,2% no uso da plataforma Wellhub em 2025, demonstrando que os funcionários estão priorizando a saúde integral. A adesão às sessões de terapia online também subiu 16,6%, sinalizando que o estigma sobre o tema está sendo gradualmente vencido.
Para Vana Fiorini, o maior desafio ainda é o medo do julgamento, o que exige coerência entre o discurso e a prática da liderança. Ela conclui que a saúde mental precisa ser tratada com seriedade e dados, pois o cuidado genuíno transforma culturas e gera resultados sustentáveis para todos.









