Censo do RH: 75% utilizam IA de forma operacional
Uso estratégico ainda é minoria nos departamentos de RH
A Inteligência Artificial já é uma realidade transversal nos departamentos de Recursos Humanos no Brasil, conforme aponta o mais recente Censo do RH realizado pelo WallJobs em parceria com a Faculdade ESEG. O levantamento indica que 75% dos profissionais da área utilizam ferramentas de IA tanto no ambiente corporativo quanto na vida pessoal. No entanto, a aplicação tecnológica permanece majoritariamente concentrada em tarefas operacionais e burocráticas, como a conferência de dados e a análise inicial de currículos, sem ainda atingir seu pleno potencial analítico para o crescimento do negócio.
O estudo, que ouviu 525 respondentes no fechamento de 2025, revela que a transformação digital é mais nítida em grandes empresas, especialmente naquelas sediadas em São Paulo. Henrique Calandra, fundador do WallJobs, observa que a IA começa a ser vista como uma aliada para agilizar processos, embora ainda falte clareza sobre como integrá-la à inteligência estratégica. O desafio central em 2026 não reside mais na adoção da ferramenta, mas na capacidade de utilizá-la para potencializar a tomada de decisão sem comprometer o julgamento humano.
Para as lideranças de RH, a preocupação do tempo presente é a humanização da tecnologia e a segurança dos dados. Calandra destaca que “a IA não vem para substituir, vem para potencializar o profissional de RH. O ponto central não é mais se ela fará parte da nossa rotina, mas como vamos integrá-la sem perder o que nos torna humanos”. Esse posicionamento reflete a busca por um equilíbrio onde a automação libera tempo para atividades de maior valor agregado, mantendo a sensibilidade necessária para a gestão de pessoas.
Quais são as barreiras éticas e estratégicas?
No âmbito do Recrutamento e Seleção, mais de 60% dos profissionais consideram a IA essencial para acelerar o processamento de currículos. Todavia, o Censo do RH destaca uma resistência significativa quanto aos riscos éticos: 57% dos entrevistados acreditam que os algoritmos podem excluir perfis fora dos padrões tradicionais, reforçando preconceitos estruturais. Esse dado sugere que o uso da tecnologia ainda é focado em ganhos imediatos de eficiência produtiva, em vez de ser direcionado para a mitigação de vieses ou melhoria da experiência do candidato.
Em outras frentes, como o onboarding e a gestão salarial, a tecnologia começa a ganhar terreno de forma mais granular. Na análise de remuneração, 49% já recorrem a ferramentas para benchmarks de mercado, demonstrando que áreas que exigem precisão técnica são as mais abertas à inovação. No entanto, o receio de uma dependência excessiva de algoritmos na gestão de talentos ainda é citado por 35% dos respondentes, evidenciando uma cautela necessária em relação à automação de decisões que impactam a carreira dos colaboradores.
A aplicação da IA em temas sensíveis como saúde mental e ESG também desponta como tendência no radar de 2026. Cerca de 27% dos profissionais percebem a tecnologia como uma aliada para identificar cenários de sobrecarga e burnout, enquanto 14% monitoram indicadores de diversidade e inclusão em tempo real. Esses resultados indicam um posicionamento maduro por parte do RH brasileiro, que reconhece os benefícios da análise de dados em larga escala, mas exige transparência sobre as métricas utilizadas para medir o bem-estar organizacional.
Qual o papel do fator humano nas decisões críticas?
A maturidade ética dos departamentos de RH é testada em processos de desligamento. O Censo do RH revela um empate técnico: 39% dos profissionais defendem que essas decisões devem ser exclusivamente humanas, enquanto outros 39% reconhecem o valor da IA como suporte analítico para avaliar desempenho e aderência cultural. Essa paridade demonstra que, embora a tecnologia forneça subsídios precisos e históricos de performance, a palavra final sobre o futuro de um colaborador ainda é vista como uma responsabilidade que exige empatia.
A transição do uso operacional para o estratégico é o próximo grande passo para a área de Gente e Gestão nos próximos ciclos. O Censo reforça que há um espaço amplo para evoluir do foco em redução de custos para a geração de inteligência competitiva. A integração da IA generativa deve ser acompanhada por um perfil analítico que saiba questionar os resultados da máquina e garantir que a automação não amplie desigualdades internas ou falhas de governança.
O futuro do trabalho consolida-se na simbiose entre o humano e a máquina, onde a tecnologia atua como um sistema de suporte. Segundo o professor Edgard Rodrigues, da Faculdade ESEG: “O futuro do trabalho não é humano ou artificial. É humano com tecnologia. A IA não é uma ameaça, mas uma ferramenta de empoderamento, capaz de ampliar nossa capacidade de análise e liberar tempo para o que realmente importa”. Em última análise, a tecnologia cumpre seu propósito quando fortalece as pessoas e a cultura dentro das organizações.








